segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Wikipédia - Excertos da entrevista ao Publico

A propósito de Wikipédia e da minha colaboração aqui reproduzo parte da entrevista do artigo que por razões de composição editorial, não pôde ser publicado na integra, pelo Jornalista Helder Beja do Jornal Publico no caderno (Suplemento Digital).

Caro Carlos Botelho, na sequência do artigo que estou a desenvolver sobre wikipedistas para o jornal Público, abaixo seguem então algumas questões que estou a colocar a um grupo de cinco fazedores da Wikipedia (portugueses e brasileiros). Desde já, agradeço a disponibilidade em colaborar e peço a celeridade na resposta. Cá vão elas:

*Peço que responda de forma não-concisa. Isto é, que acrescente dados relevantes e interessantes, que extravase e não se cinja ao âmbito de cada pergunta. Há com toda a certeza inúmeras coisas a saber sobre a Wikipedia que não são focadas nas minhas questões. Obrigado.

Helder Beja (Publico)


- Localidade:

Lisboa / Chaves /Sintra

- Há quanto tempo começou a escrever na Wikipedia e porquê?

Como a maioria dos Wikipedistas, o meu contacto com a Wikipédia deu-se pela necessidade de informação sobre temas específicos tanto para a minha actividade profissional ou actividade académica. Ninguém começa a editar sem antes ter tido este contacto com o projecto e comigo aconteceu aproximadamente pelo ano 2004, e inicialmente como anónimo.

Com o decorrer do tempo e pela diversidade de conteúdos que a Web nos oferece, percebi que a Wikipédia reunia os conteúdos mais ou menos organizados, ao invés das páginas avulsas disponibilizadas pelos motores de busca globais.

Em abstracto, passou a ser para um sítio “favorito” de conhecimento partilhado. Contudo, na minha área de interesse, a informação era por vezes escassa, e percebi que alguns artigos careciam de informação, poderiam ser melhorados ou outros iniciados. Estava assim reunida a condição essencial para poder começar a contribuir. Depois de uma série de erros “iniciáticos” , comuns e involuntários na edição dos primeiros artigos e ultrapassadas as frustrações iniciais, fui entrosando no espírito que regula a participação tanto individual como colectiva do projecto Wikipédia.

- Qual a área/áreas em que edita?

Basicamente edito em áreas ligadas à Cultura, coordenando por ex: o projecto: Wikipédia - Grande Lisboa – Museus, tarefa que contempla aproximadamente 50 museus da área da grande Lisboa.

Outras áreas de intervenção são os municípios especialmente: Chaves, Lisboa, Sintra.

– Pintura – Escultura - Biografias - Maçonaria.

Toda a pesquisa necessária para a edição de um artigo com qualidade, é necessariamente demorada mas também gratificante, não apenas pelo enriquecimento pessoal que proporciona, mas sobretudo, pelo acto cívico e de solidariedade que representa. A dinamização e projecção das instituições culturais em objecto, muitas vezes ignoradas nos media digitais, têm assim assegurada a presença numa das fontes de informação mais procuradas.
- Considera ter os conhecimentos suficientes para participar na feitura de uma "enciclopédia universal"?

É sempre relativo e individual o conhecimento que temos do mundo, e positivo será já o desafiar do conhecimento que os outros têm do mesmo mundo. E é precisamente por isso que a Wikipédia é universal como nenhuma outra. Não se fecha em capa dura, nem advoga o saber incontestado e absoluto, de autor ou de entidade comercial, projectado para contínua e fiel reprodução gráfica.

Colocar em dúvida as verdades mais evidentes ou inegáveis é adquirir conhecimento. Evocando o “génio maligno” de René Descartes como ser supremo e malévolo, cujo é objectivo é ludibriar equiparado ao supercomputador do filme Matrix .

No meu caso pessoal, como Artista Plástico, Designer e director de Comunicação de uma ONG em Lisboa, paralelamente estudo Gestão Cultural na Universidade Lusófona em Lisboa, o traço altruísta e a consciência do meu próprio pseudo-conhecimento, reforça e apela fortemente à intervenção.

Neste contexto que aplico com toda a propriedade a sentença socrática– [“Só sei que nada sei, mas sei que sei mais que aqueles que sabem que nada sabem.] ou [nada nos afasta mais do conhecimento do que o pseudo-conhecimento]

A pseudo-ignorância como resultado da tentativa insuficiente e fracassada em eliminar as crenças irracionais que se acumulam em nosso espírito é para mim o fundamento que rege grande parte da recusa em aceitar uma das mais bem sucedidas revoluções culturais do mundo.

O recurso crescente e privilegiado à Wikipédia em todo o meio académico, faz disparar o grau de rigor e exigência das contribuições no seu geral. É inevitável e parece irreversível.

Participar de no desenvolvimento e aperfeiçoamento de artigos, que serão posteriormente avalizados ou discutidos pelo mundo, constitui um desafio ao saber tal como estava até agora instituido. Este processo interactivo trará a curto prazo uma nova visão das realidades e dos conhecimentos, verdadeiramente globalizado e participativo que hoje se inscreve.

O “Wikipedista” deve ser encarado como um estado de espirito, indissociado da personalidade inata do individuo, de dádiva absoluta e despretensiosismo puro. Constatar-se-á este espírito nas edições disponíveis na «história» de cada artigo, perfeitamente identificados.

Ao contrário da Edição Definitiva em que um autor considera um final, sem qualquer outra emenda no seu artigo, na wikipédia estará sempre em aberto essa edição. Não haverá artigos acabados tal é a informação que cada um pode comportar.

Há cada vez mais quem não desperdice uma “boa insónia” ou um intervalo de trabalho para partilhar cliques de conhecimento, e é disto que mesmo que se trata.. A designação é bem sugestiva, e “Wikipedicaólico” assenta que nem uma luva neste e noutros casos.

- Acha que qualquer pessoa está capacitada a editar a Wikipedia, pelo menos em determinado âmbito específico?

Não acho que qualquer pessoa esteja habilitada, tenha competência textual ou narrativa, mas tenho a certeza de que qualquer pessoa tecnicamente apta, consciente do seu saber e de “bons costumes”, o pode e deve fazer, não sem antes entender os princípios e as regras básicas da edição na Wikipédia. Condição “sine qua non” é, acreditar no projecto, não sucumbir nas dificuldades iniciais, para assim poder empreender um participação construtiva. Se se entender que a “simples” correcção de um ponto ou vírgula, faz toda a diferença, está dado o primeiro passo no promissor processo produtivo, certamente apreciado, registado e valorizado pela comunidade.

- Qual a validade/rigor científico que atribui à Wikipedia. Podemos considerá-la uma fonte segura de informação?

Fonte segura de informação é sempre terreno subjectivo, como bem o sabe o meio jornalístico. O conceito de segurança coloca-se sempre a partir do momento em que não se faz a despistagem da informação pretendida com outras fontes disponíveis. Na Wikipédia quando assim acontece, o artigo é marcado com avisos quanto ao seu conteúdo que carece de fonte que não estão referenciadas. Por outro lado se atentarmos a que, o que hoje é dado como seguro, amanhã poderá não o ser a ideia de «enciclopédia viva» faz todo o sentido nesta sociedade sedenta de actualização.

Considera-se a exactidão da história cada vez mais discutível. Todos conhecemos manuais, dicionários e enciclopédias, algumas bem recentes em que a informação disponibilizada, sofreu todo um revés,considerando todos os domínios das ciências. Será sempre indispensável o cruzamento das diferentes fontes de informação que os meios proporcionem. A maioria dos artigos da Wikipédia, reune fontes diversas de informação e por norma as páginas são vigiadas como medida de segurança. Existem inúmeros editores activos e com reconhecida qualidade nas mais diversas especialidades, o que garante maior rigor aos artigos da sua área.

O projecto de triagem dos artigos enciclopédicos de qualidade superior e critério indiscutível de conteúdos editados apenas por especialistas, pode ser uma realidade a curto prazo, o que só vai engrandecer o conceito inicial e o esforço colectivo.

A separação, trigo do joio, será a excelência final, ainda que o conceito nos moldes actuais se revele imparável.

Transformar o joio em trigo é actualmente na Wikipedia a realidade desejável e bem latente, num conceito em que o carácter individual e o saber colectivo se transformam numa alquimia sem paralelo.

Também aqui sai reforçado o conceito de segurança da informação ética ou deontológica exercida pelo conhecido “Gatekeeping” que David Manning White refere nos media tradicionais, ficando exposta a depuração do conteúdo veiculado no histórico do artigo, e desmistificando desta forma a censura institucionalizada em qualquer das suas formas,.

- Quais as motivações que levam alguém a tornar-se wikipedista?

As motivações são as mais variadas, mas apenas as que se enquadram no espírito do projecto vingam. Não se pode considerar wikipedista aquele que faz edições esporádicas, mas aquele que no seu registo de edições tem provas dadas do empenho e dedicação ao projecto Wikipédia. Também aí se “armazena” toda a credibilidade na comunidade Wikipediana.

- Para além da edição de textos, existem outro tipo de actividades desenvolvidas por wikipedistas?

A wikipédia não remunera os seus editores seja qual for o seu nivel de actividade. Como tal para além de outros projectos que lhe estão associados, por certo todos terão uma actividade profissional diversificada. São promovidos encontros entre wikipedistas. O primeiro “WikiOlissipo” realizou-se em Lisboa no dia 7 de Outubro de 2006, prevendo-se o segundo para este ano.

O problema da vandalização de páginas na Wikipedia existe, certo? Na sua opinião, quais os motivos que levam utilizadores a fazer esse tipo de coisa? Que medidas são tomadas para combater essas vandalizações? Existem wikipedians com função exclusiva de vigilantes?

A vandalização de artigos é acto recorrente e incide sobretudo sobre pessoas ou matérias que normalmente estão na «agenda publica». É notória, a incidência de vandalizações em artigos que estão na ordem do dia e as figuras públicas são de facto alvos privilegiados pela mediatização a que estão sujeitas. Existem contudo mecanismos de protecção e bloqueio que são accionados nestas situações.

Para assegurar que material “impróprio” coexista existem vigilantes verdadeiramente ditos, contudo deverão ser no fundo todos os utilizadores, que ao consultar poderão corrigir erros e assim indirectamente possam exercer simultaneamente o seu acto de vigilia. No sentido objectivo de clara vandalização, normalmente recorrente, um administrador, procederá de acordo com a sua competência banindo o “vândalo” por tempo determinado.

A “vandalização” é um acto marginal muitas vezes inadvertido. Quando deliberado, é comparável às origens do graffiti, pela posição interventiva, contestatária e de revolta que normalmente assume, inscrita num “espaço público”, pelos autores que pessoalmente apelido «wikiwriters», ingenuamente seguros da sua marginalidade, e enganados quanto ao seu anonimato.

- Conte, se assim entender, algum episódio curioso relacionado com a Wikipedia ou alguma particularidade/actividade presente na plataforma que considere interessante.

Caso peculiar de entre muitos outros, uma definição bem portuguesa e tanta polémica tem levantado no meio Wikipediano. São já inúmeras as edições e reversões. Dos mais iluminados aos mais conservadores, a etimologia da palavra, tem sido objecto de especial controvérsia. Não há verdadeiramente consenso, e sem consenso há “ambiguação”. Para alguns é apenas a designação corrente de “Pénis” em linguagem arcaica, referenciando fontes enciclopédicas.

Para os mais estudiosos “Caralho” é referenciado pelo menos desde os descobrimentos nas antigas embarcações, como as caravelas, como sendo a cesta ou vigia, onde os marinheiros observavam o horizonte, em busca de sinais de terra ou de outras embarcações.

A expressão tornar-se-ia ofensiva e sinónimo de castigo, por remeter o marinheiro ao posto de observação no mastro principal e mais alto, onde estaria sujeito às intempéries e ao penoso balançar da Nau.

Motivos não faltarão para iniciar uma boa pesquisa e a colaboração na Wikipedia em português.

- Existem mais brasileiros que portugueses a editar a Wikipedia, certo?

Como se gere a questão linguística português /português do Brasil? É pacífica?

O português como lingua oficial contempla cerca de 210 milhões de pessoas, e a quinta língua mais falada no mundo. Tem um potencial tão rico, quanto as regiões e os dialectos de que é nativa. Os idiomas, no Brasil, em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Timor e por todo esse mundo lusófono, representa um legado de valor incalculável, suficientemente negligenciado e deve constituir um real factor de aproximação, como a Wikipédia o prova, embora a questão português (do Brasil) possa parecer constituir um paradoxo neste universo gramatical.

Não tenhamos duvida que a luta pelas “identidades” perdurará sempre. No entanto, a coabitação de textos em língua “portuguesa”, não constitui grande matéria de discórdia, e quando assim sucede, são substituidos ou reformulados os conteúdos e terminologias por outros de mesmo valor semântico, apenas possíveis, tal é a riqueza e a universalidade da língua portuguesa.

O respeito pela diferença é o factor mais enriquecedor desta plataforma de base lusófona e universal, e mais do que problematizar, resolve uma questão muito mais premente – “Encultura”, citando Gerbner. De resto não é exclusivo da língua portuguesa, vejamos o caso da Espanha ou do Inglês em que a diversidade linguística coloca barreiras dentro do próprio sistema, mas nem por isso deixa fechada a participação global. Haverá sempre em grandes casos sempre a possibilidade de se criar uma Wikipédia noutra língua ou dialecto como opção. A questão da criação de uma Wikipédia em Português (Portugal) já foi colocada no entanto prevaleceu o bom senso e não vingou.

A adaptação e pragmática desta questão, desafia todos os “acordos ortográficos”, de forma natural e com base no respeito pela diferença invertendo os actuais padrões diluidores e massificantes.

A “variedade standard” de cada gramática não empobrece. A universalidade hegemónica do mundo, não deixa de ser uma utopia de génese ontológica, indissociada das diferentes formas do ser. A sociolinguística no estudo destes fenómenos aborda a “variante dialectal” em toda a sua riqueza que como bem volátil, transmissível e geracional que urge preservar.

Fornecendo informação e conhecimento como chave de progresso a revolução digital e colaborativa, está a construir e a enformar uma nova sociedade devemos todos tentar contribuir os seus contornos e potencialidades.

Em questões da actualidade (política; futebol) existirão com certeza páginas que darão imenso trabalho, por alterações constantes, umas menos boas que outras, certo?

No seu conceito de base como enciclopédia, questões de actualidade diária não constitui per si matéria de interesse em particular. Existem sim, mas não constitui o espírito da Wikipédia. Esse espaço está ainda reservado ao tradicional “medium” que o faz de forma muito mais eficiente, bastando mencionar as edições online que hoje existem.

De facto o futebol gera alguma confusão, dentro e sobretudo fora dos relvados, mas confesso que com tanta matéria interessante, prefiro o relvado do jogo cultural, menos efémero e mais “enriquecedor”.

Que páginas são essas?

A biografia do primeiro-ministro José Sócrates foi, há pouco tempo, um bom exemplo disso, estou correcto?

Na política como referi anteriomente, são os seus mais altos representantes o alvo privilegiado da atenção dos “vândalos” sobretudo quando existem questões emergentes na agenda mediática, mas não constitui o meu particular motivo de interesse.

O caso bem recente do primeiro ministro José Sócrates, é não mais do que o extrapolar de mais uma questão mediática, levada ao extremo, fora e dentro da Wikipédia, e que foi “protegida” pela sua constante vandalização.

Um outro exemplo, o artigo do Ex presidente da República Dr. Mário Soares, refletem muitas vezes o descontentamento, a indignação, e a manifestação de sentimentos à muito recalcados, manifestados da forma menos correcta num meio de fácil acesso. E isso é vandalização. A wikipédia é sabido não dirime questões pessoais embora possa discuti-las nas páginas de discussão ou na esplanada, sempre fora do artigo principal.

Edições como o caso do desaparecimento de Madeleine McCann que na sua vertente mediática constitui um histórico, e excepção, prova a actualidade e o rigor dado pelo cidadão consciente e «wikipedizado» à super-organização solidária de maior sucesso mundial - a Wikipédia.

sábado, 20 de outubro de 2007